Rápidas

Rápidas
Orlando Pinheiro

...De vez em quando a gente senta o pau na nossa terra, principalmente no Brasil. Mas é importante saber que não é na etnia brasileira que está problema. Está na falta de perspectiva das pessoas. Esta sim é a responsável pela desestruturação familiar e desagregação da garotada exposta à ação do inimigo famigerado que os escravizou por uma bagana de fumo, ou uma merla na veia. Somos rotulados lá fora de paraíso dos pedófilos, campeão do turismo sexual, principalmente com garotas de tenra idade. Na visão dos estrangeiros, somos vadios por natureza! Mas ao verificarmos o outro lado do espelho, veremos a possibilidade de encontrar um país dourado atrás do arco íris. É um vício incurável falar mal do Brasil.

...Gringo não pensa como a gente. Basta perguntar pra essa garotada que está ralando no Japão e em outros países qual é o melhor lugar do mundo. Tenho uma prima que mora na Inglaterra e ela me diz que lá só existe uma companhia telefônica. Se você reclamar insistentemente como faz por aqui nos 0800, corre o risco de ter a linha cortada. O resultado de eleições demora dias, pois os votos são contados manualmente. Diz-me ainda essa prima, que nós costumamos mostrar o lado negativo do nosso país, enquanto os europeus maximizam o pouco que têm.

...Precisamos conscientemente saber que só nós somos responsáveis pela nossa qualidade e estilo de vida. Nos estados Unidos, não embrulham sanduíches em guardanapos como se faz em qualquer carrinho de cachorro quente por aqui. O povo de lá não tem por hábito lavar as mãos antes das refeições (nossa herança judaica) feito nós. Padarias, açougues e peixarias da Europa manipulam dinheiro e produtos, concomitantemente. Aqui entre nós, antigamente embrulhávamos peixe e carnes em jornal... Isso faz tempo. Já evoluímos!

...À primeira vista, temos de ter um conceito positivo sobre nós mesmos. Nossa famosa batata palha, alegria da garotada, vem acondicionada em recipiente especial. Essa prima minha me contou que lá na Inglaterra, essa mesma lanchonete americana, famosa no mundo inteiro, embrulha as batatas em jornais e saquinhos de papel. E a garotada faz fila na porta dos quiosques. Não existe local para não fumante em bares e restaurantes fora do Brasil e nem campanha antitabagismo. O garçom pode rir na sua cara se você pedir um reservado para não fumante. Os tabagistas são maioria. Fumam, soltam fumaça e flatulências até dentro do elevador.

...Garçons europeus são mal educados, principalmente os de Paris. Qualquer caixeiro de botequim, no Brasil, é bem mais atencioso. O mais estúpido barista de lanchonete é capaz de dar aulas de boas maneiras e ensinar a eles como tratar bem os fregueses. Às vezes não sabemos avaliar o que temos de bom.

...Nos filmes épicos americanos, na hora de maior emoção, tremula a em algum ângulo da cena a bandeira dos Estados Unidos... É para provocar emotividade mesmo. É dessa forma que as grandes potencias mundiais destroem a racionalidade do povo, impondo-lhes crenças e culturas. Por causa desse ufanismo os soldados estão morrendo no Iraque.

...Nós temos a nossa abençoada língua caipira. Os filólogos a chamam de "nhaengatú". Um português que não se assemelha em nada com o português de Portugal, nem com o português de Angola e nem com o de Formosa, na China. As empresas de software a chama de português brasileiro. É um problema para elas! Por causa dessa divergência lingüística há uma dificuldade para os gringos se comunicarem conosco pela internet. Português de Portugal não tem bunda que é uma palavra banto, herdada dos escravos. Tem nádegas. O similar de nádegas na língua lusitana é o mais humilhante palavrão brasileiro. Entendeu agora a origem da palavra cueiro, aquele pano de bunda de criança?

Tentando imitar os outros, somos vítimas de vários crimes contra a nação, crença e cultura. Deste tempo no qual estamos vivendo, só os mais esclarecidos sabem que temos muito à fazer para resgatar nossas raízes culturais. Taí um sonho quixotesco meu de do Paulinho do Paulico Brandão com relação ao São Miguel. Resgatar nossa cultura. Ficamos alienados nestes últimos tempos. Somos um povo hospitaleiro por índole. Nós nos esforçamos para falar a língua dos turistas, gesticulando, fazendo caras e bocas e não medimos esforços para atendê-los bem. Inclusive no Rio de Janeiro, que é sem dúvida alguma, apesar da violência, a cidade mais solidária do país. E em São Miguel, então? Somos um povo alegre que fazemos piadas da nossa própria desgraça!

...A grande maioria dos brasileiros, ricos ou pobre dedicam boa parte do seu tempo à causas nobres, trabalhando como voluntários. Talvez por esse empenho, o nosso grande sucesso no combate a AIDS e às doenças sexualmente transmissíveis. Somos o único país do hemisfério a participar do projeto Genoma. Gostamos de pagode, carnaval, MPB e também de orquestra sinfônica. Quem são se arrepia quando ouve os primeiros acordes do Guarani, ou a introdução do Hino Nacional Brasileiro, seja na Copa do Mundo ou não?

...Tomamos banhos todos os dia. Às vezes mais de uma vez... É um hábito saudável que herdamos dos índios, enquanto o europeu mal lava as partes e o sovaco, em média, uma vez por semana e olhe lá. Perdi até a graça de abraçar a Juliette Binoche! Vivemos em fraternidade com todas as raças e com todos os credos. Traduzimos todos os sotaques, de norte à sul deste enorme florão da América, com todos os tipos de clima para alegria de tanta gente. Apesar dos percalços, somos hoje a terceira maior democracia do globo, depois de vinte e um anos de ditadura militar. O Congresso Nacional, apesar de todos os descréditos, está disciplinando seus pares. Deu pra sentir o nosso potencial? E a capital das uvas finas? É ou não é melhor lugar deste pais?

...Até a semana.

 
 

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